Introdução:
Todo tema que trata de dinheiro se torna delicado. Sempre
traz dificuldades de interpretação e muita controvérsia. Alguns não gostam de
falar e outros já falam demais, priorizando a arrecadação em detrimento da
mensagem do evangelho.
No meio dessa discussão está a questão do sustento
pastoral. É correto o pastor receber da igreja para realizar seu trabalho?
Muitas pessoas travam batalhas para dizer que os pastores
que recebem por seu trabalho são verdadeiros ‘mercenários’ ou ‘charlatões’. Mas
é isso que a Bíblia afirma?
Desenvolvimento:
Gostaria de começar com perguntas para reflexão. 1) Quem
se dedica em tempo integral para uma missão terá melhores condições de
exercê-la do que aqueles que se dividem em várias tarefas? 2) Um estudante de
tempo integral terá melhores condições de aprender do que aqueles que estudam e
trabalham? 3) Uma pessoa que se dedica de tempo integral ao ensino e cuidado
pastoral alimentará e cuidará melhor do rebanho? 4) Alguém que trabalha 8 horas
por dia, seis dias da semana, em um trabalho secular, fará um trabalho de
excelência como pastor? 5) Alguém nessa dura jornada de trabalho terá tempo
para visitar, aconselhar e acompanhar as ovelhas nas suas mais diversas
preocupações da vida?
Quem for honesto no debate terá que se convencer de que uma
pessoa que se dedique ao estudo da palavra, ao ensino, ao cuidado pastoral do
rebanho e às visitações, com certeza, fará muito melhor e mais excelente o
serviço do Senhor. A igreja ganhará muito tendo uma pessoa que não precise se
preocupar com negócios da vida e que seja prontamente sustentada por ela. A
igreja será protegida das heresias, será alimentada com mensagens edificantes e
terá todos os membros com acompanhamento a qualquer hora do dia.
Igrejas em que ninguém se dedica totalmente ao estudo da
palavra tendem a se entranhar com heresias e com uma membresia completamente
dispersa como quem não tem pastor. Os argumentos desse tipo de igrejas são
geralmente piedosos. Tendem a enganar com um apelo ao sacrifício de não receber
para trabalhar na obra. É tão bonito ver alguém dizer: “O evangelho deve ser
pregado de graça”. Dão um tom de piedade, mas que não se sustenta quando
lemos as Escrituras com um olhar atento sobre o assunto.
A questão qual estamos lidando não diz respeito a “ganhar
para pregar”, “receber para fazer a obra de Deus”. Essas são falácias daqueles
falsos piedosos e que não estudam sobre o que a Bíblia diz. É óbvio que não se
deve ganhar para pregar ou receber para trabalhar para Deus. A questão de que
tratamos é se alguém que se dedique de forma integral ao ensino da palavra e ao
cuidado pastoral deve receber seu “sustento” da igreja. Essa é a verdadeira
questão do assunto. Se consideramos que alguém que se dedique integralmente ao
estudo, ao ensino e ao cuidado pastoral seja algo muito bom, então a nossa
obrigação será sustentar essa pessoa para que tenha condições de fazer suas
tarefas. Não há nada de errado nisso, pelo contrário, isso é bíblico.
Dt 18:1-5 “Os sacerdotes levitas e toda a tribo de Levi
não terão parte nem herança em Israel; das ofertas queimadas ao Senhor e
daquilo que lhes é devido comerão. Pelo que não terão herança no meio de
seus irmãos; o Senhor é a sua herança, como lhes tem dito. Será
este, pois, o direito devido aos sacerdotes, da parte do povo, dos que
oferecerem sacrifício, seja gado ou rebanho: que darão ao sacerdote a espádua,
e as queixadas, e o bucho. Dar-lhe-ás as primícias do teu cereal, do teu
vinho e do teu azeite e as primícias da tosquia das tuas ovelhas. Porque
o Senhor, teu Deus, o escolheu de entre todas as tuas tribos para
ministrar em o nome do Senhor, ele e seus filhos, todos os dias.”
Desde o VT Deus já ordenava que os sacerdotes e Levitas
teriam dedicação exclusiva na obra e serviço do Senhor. Por isso, eles seriam
sustentados pelas ofertas do povo. O povo seria responsável pelo sustento de
seus sacerdotes.
Mas ainda existem aqueles que acham que Deus é mutável. Ou
seja, dizem que esta prescrição era para o VT e não mais para o povo da nova
aliança. Ora! Se Deus considerava bom que existissem pessoas que se dedicassem
aos seus serviços e recebessem das ofertas do povo para seu sustento, por que
Deus mudaria de ideia no NT e isso já não seria bom na nova aliança? Será que
Deus errou no VT e mudou de ideia? Se era bom no VT continua sendo bom no NT.
Se Deus se agradava em ter pessoas para se dedicarem integralmente aos seus
serviços antigamente, Ele se agrada hoje também. Isso é bom aos olhos do
Senhor.
Vamos então ao NT ver o que Deus fala sobre o
assunto
1 Tm 5:17 “Devem ser considerados merecedores de
dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que
se afadigam na palavra e no ensino.”
Paulo está nos dizendo que o Presbítero deve ser honrado.
Essa honra deve-se principalmente aos que se dedicam à pregação e ensino
(pastor). O Apóstolo expressa muito bem a palavra “afadigar”. Ou seja, aqueles
que se dedicam ao máximo, ao ponto de se esgotarem de suas forças com o estudo
e ensino. Não há a menor dúvida de que, para acontecer isso, será preciso um
tempo exclusivo de dedicação. E isso só poderá ser feito se o Pastor for
sustentado.
O homem que dedica todo seu tempo e esforço na obra do
reino certamente merece seu sustento. Honrar pode até não significar pagamento
de salário ou sustento, mas como a igreja poderá honrar aqueles que se dedicam
integralmente ao estudo e ensino se eles passam por necessidades? Que honra
seria essa? Logo, a honra tem a ver com sustento.
Paulo, em sua carta aos Corítnios, vai lembrar do que foi
escrito em Dt 25:4 “Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca
ao boi, quando pisa o trigo. Acaso, é com bois que Deus se preocupa? Ou é,
seguramente, por nós que ele o diz? Certo que é por nós que está escrito; pois
o que lavra cumpre fazê-lo com esperança; o que pisa o trigo faça-o na
esperança de receber a parte que lhe é devida.” 1 Co 9:9-10
Deus já proibia amordaçar o boi quando debulhavam. Até o
boi deveria ter o direito de comer (ser sustentado) enquanto trabalhava. Deus é
bom e seu princípio sempre será bom e perpétuo. E o princípio é que aqueles que
se dedicam integralmente ao ensino devem ser sustentados, devem ter o direito
de comer. Paulo ainda deixa bem claro que ele está se referindo ao sustento do
servo de Deus e não, diretamente, aos animais. No presente caso, isso
significaria que “os que proclamam o evangelho devem viver do evangelho”
(1Co 9.14).
Paulo está enfatizando que o respeito para aqueles que se
dedicam ao ensino e pregação do evangelho tem pleno direito a receber seus
sustentos e de forma digna.
Aqueles que já possuem sustento em atividades seculares,
mas desejam trabalhar na obra pastoreando o rebanho de Deus, podem abdicar
completamente de ser sustentado pela igreja. Porém, se fazemos dessas exceções
uma regra, negaremos à igreja o privilégio de ter alguém dedicado integralmente
para o cuidado e ensino dos membros. Aqueles que possuem duas agendas, dois
trabalhos, duas preocupações, terão menos tempo para o estudo e ensino do povo
de Deus. Tudo isso poderá custar muito caro para a igreja.
Um pastor é livre para recusar um salário caso essa
remuneração prejudique o trabalho do evangelho em seu contexto. Esta foi a
motivação de Paulo para recusar o pagamento entre os coríntios (1Co 9.12-18).
“Fabricação de tendas” não
deve ser o modelo a ser seguido nas igrejas. Deve ser a exceção para homens que
sejam sérios e dedicados integralmente à obra de Deus.
A Bíblia ensina que a tarefa de um pastor é um trabalho
nobre (1Co 9.7), e, quando feito vocacionalmente, merece remuneração (1Tm 5.17)
― assim como todo trabalho honesto.
A questão de pagar seu pastor não é uma questão cultural, é
um mandato bíblico. E deve ser tratado como tal.
A Palavra de Deus definha no púlpito porque as igrejas
foram ensinadas a investir em edifícios e projetos, não em homens que se
entregaram ao ministério da Palavra. Temos chamado, de maneira errada e até
mesmo pecaminosa, homens a escolherem entre desobedecer ao chamado para prover
suas próprias famílias (1Tm 6.8) e o chamado para ir por causa do nome dele.
Embora Deus possa chamar pastores e missionários para suportar dificuldades
financeiras por causa do avanço do Evangelho, nenhuma igreja é solicitada a fazer
disso sua política oficial.
Conclusão:
“O trabalhador é digno de seu salário.
Aqueles que permitem que os seus animais passem fome – para não dizer nada de
seres humanos –, os quais usam no rude trabalho da agricultura, visando a seus
próprios interesses, são cruéis e lançam no esquecimento todos os princípios da
equidade. Quão mais intolerável é a ingratidão daqueles que se recusam em
prover a seus pastores de sua subsistência, cuja retribuição, de conformidade
com o seu real merecimento, é totalmente impossível.” (João
Calvino, Pastorais).
Diante de todo o exposto, temos a certeza de que é
plenamente bíblico a igreja fornecer sustento financeiro ao Pastor e sua
família. A igreja deve prover ao Pastor um salário de forma que ele possa se
despreocupar em ter que suprir suas necessidades trabalhando em outros lugares.
As necessidades não são apenas as de caráter alimentar, mas os gastos com
moradia, roupas, colégio, saúde e todo o necessário para sua sobrevivência de
modo digno.
Quando a igreja tem uma pessoa dedicada exclusivamente a
estudar, ensinar e cuidar dos membros, ela será edificada e crescerá cada vez
mais para glória de Deus. Um pastor comprometido com a palavra e que se afadiga
no cuidado e ensino das ovelhas deve ser honrado e sustentado pela igreja.
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